Crise entre STF, Congresso e governo: quem paga a conta é o trabalhador

Enquanto os Poderes se enfrentam, processos se acumulam, projetos sociais perdem espaço e trabalhadores continuam esperando por aposentadorias, benefícios e segurança jurídica.
O Brasil acompanha uma das mais graves crises de confiança entre suas instituições. O Supremo Tribunal Federal enfrenta conflitos internos e questionamentos públicos; o Congresso reage, discute mudanças no Judiciário e transforma a crise em disputa política; e o governo entra no centro do confronto em pleno período eleitoral.
Nos gabinetes de Brasília, a disputa envolve poder, influência, investigações e estratégias eleitorais. Mas, longe da Praça dos Três Poderes, existe uma pergunta que quase nunca recebe a atenção necessária: como essa crise afeta a vida do trabalhador brasileiro?
A resposta é direta. Quando as instituições gastam energia protegendo interesses, trocando acusações ou tentando vencer a batalha política do momento, os problemas reais da população ficam para depois. E esse “depois” pode representar anos de espera por uma aposentadoria, um benefício do INSS, uma indenização ou o reconhecimento de um direito.
Três notícias que revelam o tamanho do problema
Entre os conteúdos recentes com maior destaque sobre o tema, três ajudam a compreender os diferentes lados dessa crise.
Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 16 de setembro e atualizada no dia 17, mostra que a guerra interna no STF está ofuscando problemas antigos e concretos do Judiciário, como morosidade, insegurança jurídica, excesso de recursos, decisões individuais, falta de transparência e dificuldade de acesso à Justiça. Segundo os dados citados pela reportagem, o Brasil encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos pendentes. Somente naquele ano, chegaram 40,9 milhões de novos processos, incluindo recursos. O texto observa ainda que o próprio poder público contribui para a judicialização quando obriga cidadãos a recorrer aos tribunais para receber direitos, inclusive aposentadorias.
Outra reportagem da Folha, publicada em 9 de setembro, aponta que especialistas associam a crise à politização do STF e a problemas estruturais da Corte. O levantamento registra a troca inédita de pedidos de investigação entre ministros e mostra a perda de confiança de parte da população no tribunal.
Já uma matéria do UOL, publicada em 17 de setembro, mostra como a crise entrou definitivamente na disputa pelo governo. Em pesquisa Atlas/Bloomberg, 49,5% dos entrevistados disseram acreditar que o episódio prejudica mais a candidatura do presidente Lula. Quando um problema institucional vira principalmente arma eleitoral, cresce o risco de que a busca pela verdade, pela transparência e pelo funcionamento regular das instituições seja substituída pelo cálculo político.
O Congresso também se movimenta. Em 15 de setembro, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou uma indicação para que a Comissão de Constituição e Justiça crie um grupo de trabalho destinado a discutir uma reforma do Judiciário. A iniciativa confirma que a crise já ultrapassou os limites do STF e chegou formalmente ao Legislativo.
Enquanto Brasília briga, o trabalhador espera

É preciso deixar claro: uma crise institucional não é um assunto distante da vida cotidiana. Ela produz consequências práticas.
Um trabalhador que aguarda o reconhecimento de uma atividade especial depende de decisões administrativas e judiciais. Um segurado que teve o benefício negado pelo INSS pode esperar anos por uma sentença. Uma família que tem valores a receber do poder público pode vencer a ação e, ainda assim, continuar na fila de um precatório. Quando o sistema perde o foco, essas pessoas ficam ainda mais distantes de uma resposta.
Na aposentadoria especial, o problema é evidente. Temas capazes de mudar a vida de milhares de segurados dependem do STF. A ADI 6309 discute pontos centrais das regras impostas pela Reforma da Previdência. O Tema 1209 afeta diretamente os vigilantes que lutam pelo reconhecimento da atividade especial. Cada adiamento prolonga a insegurança de quem trabalhou exposto a risco, ruído, calor, agentes químicos ou outras condições prejudiciais à saúde.
Esses trabalhadores não podem ser tratados como números em uma planilha nem como peças secundárias numa disputa entre autoridades. Muitos já passaram décadas em ambientes nocivos. Outros estão doentes, desempregados ou sem condições de continuar trabalhando. Para eles, uma decisão adiada não é mero detalhe processual: é renda que não chega, tratamento que pode ser comprometido e dignidade colocada em espera.
A crise também paralisa o Congresso
O prejuízo não está apenas nos tribunais. Quando o Congresso concentra sua agenda em embates com o STF, pedidos de investigação, impeachment de ministros e disputas eleitorais, projetos que interessam diretamente à população correm o risco de perder prioridade.
É o caso do PLP 42/2023, que busca regulamentar critérios da aposentadoria especial e corrigir injustiças agravadas pela Reforma da Previdência de 2019. Trabalhadores expostos a condições nocivas precisam de regras justas e previsíveis. Porém, mesmo propostas urgentes disputam espaço com uma pauta política cada vez mais dominada pelo conflito entre os Poderes.
O debate institucional é necessário. Suspeitas graves precisam ser apuradas com independência, transparência e respeito ao devido processo legal. O Congresso não pode abrir mão de suas atribuições constitucionais, assim como o STF não pode agir sem prestar contas à sociedade. Mas nenhuma instituição deveria usar a crise como desculpa para abandonar a agenda social.
A conta chega ao emprego, à renda e aos serviços públicos
A instabilidade também afeta a economia. Um país com insegurança jurídica, confronto permanente entre instituições e decisões imprevisíveis transmite desconfiança a empresas, investidores e consumidores. O resultado pode aparecer na redução dos investimentos, na dificuldade de geração de empregos e no encarecimento do crédito.
Ao mesmo tempo, o alto custo da máquina pública contrasta com a dificuldade do cidadão comum para acessar a Justiça. A reportagem da Folha destaca críticas aos supersalários e às verbas que ultrapassam o teto remuneratório. É legítimo perguntar: como aceitar cortes em políticas sociais, restrições previdenciárias e o discurso permanente de falta de recursos enquanto parcelas privilegiadas do Estado continuam protegidas?
O trabalhador paga impostos, contribui para a Previdência e financia todo o sistema. Ainda assim, quando precisa do Estado, enfrenta filas, exigências, recursos e anos de demora. Essa é talvez a face mais cruel da crise: quem sustenta as instituições é justamente quem recebe delas a resposta mais lenta.
Defender as instituições não significa aceitar abusos
O Brasil não precisa escolher entre instituições fortes e fiscalização. Instituições verdadeiramente fortes são aquelas que aceitam controle, corrigem erros e respondem à sociedade.
Defender a democracia não significa blindar ministros, parlamentares ou integrantes do governo. Da mesma forma, investigar suspeitas não autoriza ataques irresponsáveis, desobediência às leis ou tentativas de destruir as instituições. O caminho responsável passa por apuração transparente, respeito à Constituição e separação equilibrada entre os Poderes.
Também é preciso recuperar o foco. A prioridade nacional não pode ser apenas descobrir quem vence a guerra política em Brasília. A prioridade deve ser fazer o Estado funcionar para quem precisa dele.
O trabalhador não pode continuar esquecido
O STF precisa julgar com independência e dar respostas aos processos de grande impacto social. O Congresso precisa fiscalizar, legislar e votar projetos que protejam quem trabalha. O governo precisa administrar, cumprir a lei e reduzir a necessidade de o cidadão recorrer à Justiça para obter direitos básicos.
Nenhum Poder está acima da Constituição. E nenhum conflito entre autoridades pode valer mais do que a vida de milhões de brasileiros que aguardam emprego, renda, benefício, aposentadoria e segurança jurídica.
Enquanto os poderosos discutem quem tem mais força, o trabalhador continua pagando a conta. O Brasil precisa de instituições respeitadas, mas respeito não se impõe pelo cargo: conquista-se com transparência, responsabilidade e serviço à população.
No fim, a pergunta que deve orientar este debate não é quem sairá politicamente vencedor. A pergunta correta é: até quando o cidadão comum continuará sendo o maior prejudicado?
Pós-graduado em Administração e aposentado por aposentadoria especial, Moacir Pereira é movido pela paixão em pesquisar e criar conteúdo sobre Aposentadorias do INSS e estratégias para garantir uma renda extra na aposentadoria.
Com mais de 20 milhões de visualizações no youtube e centenas de artigos publicados, sua missão é disponibilizar informações relevantes e atualizadas para que os trabalhadores alcancem a merecida Aposentadoria do INSS e a tão sonhada liberdade financeira
Fontes consultadas
- Folha de S.Paulo — Crise no STF se soma a morosidade na Justiça e supersalários em desafios para próximo presidente — 16/09/2026, atualizada em 17/09/2026.
- Folha de S.Paulo — Crise no STF reflete politização da Corte e problema estrutural, dizem especialistas — 09/09/2026.
- UOL — Atlas/Bloomberg: 49,5% acreditam que crise no STF prejudica mais Lula — 17/09/2026.
- Senado Notícias — CDH aprova indicação para que CCJ crie grupo de reforma do Judiciário — 15/09/202


